quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Coletânea de Pensamentos (dos outros!)

Sem-delongueiros!

Já devem ter notado uma bugiganga que eu instalei no topo da barra direita do blog, há algum tempo, com alguns pensamentos. Aquilo, claro, não era atualizado por mim o tempo todo, e sim por um script automático do site Pensador.info. Porém, como não era eu que escolhia os pensamentos (e sim o próprio site), vez ou outra surgia um pensamento bizarro, às vezes idiota, e alguns com os quais eu não concordava.

Como estou em fase de correriiiiia (vestibular!), não tenho tido tempo pra escrever coisa muito elaborada por aqui, mas hoje me sobrou um tempinho e eu fui no site Pensador montar a minha própria coletânea de frases, citações e idéias. Ainda irei acrescentar mais coisa, e já botei eles pra rodarem aleatoriamente no menu. Se vocês soubessem como é fácil montar uma coleção no site e colocar no blog, e como tem coisa legal, engraçada, de todos os tipos... aos que tem blog, fica a dica: pode ser interessante montar uma pro seu.

Quem quiser dar uma olhada na coleção que eu fiz (os que agora irão rodar no menu), sintam-se livres para clicar: http://www.pensador.info/colecao/raulcfranca/

E por aqui já toco o meu bonde.
Abraços!

domingo, 21 de dezembro de 2008

A menina que tinha as unhas mais bonitas do mundo

21 de Dezembro de 2008. Lar da Criança "Irmã Júlia".

Era uma tarde de festa. Um domingo é sempre dia de visita; mas quando se trata do último antes do Natal, a coisa fica diferente. Mais gente se faz presente; pessoas se dispõem a imitar artistas famosos, dublando-os; há bolo e refrigerante, e clima de celebração.

Quando eu me aproximei de um pequeno canteiro, no pátio modesto onde acontecia a festa, vi o meu amigo Filipe agachado, conversando com duas crianças. Eram duas garotinhas que moravam ali, e não demoraram muito para conquistar seu coração bondoso. À medida em que me aproximava, fui notando o vivo entusiasmo na fala de meu amigo; e as duas pequenas mostravam, nos olhos radiantes, a alegria de receber daquele desconhecido tão carinhoso o afeto que provavelmente nunca experimentavam através dos pais, ausentes.

Sentei na beirada do canteiro, junto com o Filipe e as pequeninas, e perguntei a uma delas qual era o seu nome. Respondeu algo baixinho, que não consegui ouvir; mas pude ver no crachá que se chamava Maria e tinha quatro anos. O meu amigo, que acabava de dizer algo à outra menina, virou-se para Maria e lhe disse:

"Olha! Você pintou as suas unhas de azul!! Ficou muito bom."
Reparei nas unhas dela, que estavam coloridas. Era um azul cor de piscina, meio descascado em algumas partes. Os dedinhos minúsculos, com um cisquinho de unha pintada de azul. E Maria sorriu, enquanto Filipe continuava os elogios. Foi quando ele e eu fomos chamados para ajudar em alguma outra coisa, ali na festa. Antes, porém, de ir embora, ele falou para a criança:

"Você tem as unhas mais bonitas do mundo!"

* * *

Minutos depois, circulando pelo pátio, vi outros dois amigos voluntários da Casa Transitória, o Lucas e o Rafael, "fazendo festa" para a pequena Maria. Num gesto espontâneo, ela mostrou as mãos para eles. Era engraçado o jeito como ela fazia; erguia as mãos na altura do rosto, com as costas da mão virada para eles. Percebendo a intenção da menina, um dos dois falou:

"Olha a unha dela, que linda!"

A menina, satisfeita, saiu andando pela festa. E mostrava as unhas para todo mundo. Aquilo tornou-se para ela uma fonte de auto-estima. Só então caiu a minha ficha de que, para uma criança que vive em um abrigo, privada do conforto, e sobretudo sem ter quem lhe dê um pouco mais de atenção (embora o pessoal do Lar seja extremamente dedicado, existem mais de 60 crianças para cuidar), talvez auto-estima seja algo mais valioso que oxigênio.

Antes de eu ir embora, ainda encontrei Maria uma última vez. E advinhe o que ela me mostrou...

* * *

A felicidade verdadeira não se faz sozinha. Muitas vezes é preciso que alguém te diga o quanto a sua presença traz alegria, o quanto é belo o seu sorriso, o quanto é bom poder contar contigo, e até mesmo como são bonitas as suas unhas...
Se nós temos o poder de fazer uma pessoa mais feliz com um simples elogio, que nada mais é do que um reconhecimento sincero de algo positivo que ela possui, então por que não fazer isso o tempo todo? Por que desperdiçar a chance de distribuir alegrias e fazer com que outras pessoas se sintam bem?

É mais uma lição que entra para o meu caderno...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Sonho de Padaria

Quando eu era criança, entrei numa padaria.

E vi um balcão cheio de doces. No fundo, uma prateleira espelhada com vários tipos de pão. O teto de madeira, com luminárias, fazia do ambiente um lugar aconchegante. Era Dezembro; luzinhas natalinas enfeitavam o contorno das portas, um papai noel pendurava-se no alto de um armário. A noite já tinha caído, e a padaria estava cheia de gente, a rua estava cheia de gente, a cidade estava cheia de gente.

E eu, agarrado ao braço da minha mãe, lhe fiz um único pedido: queria aquele sonho, aquela coisa cremosa e mágica que repousava solitária na bandeja; aquele sonho que eu vislumbrava pelo vidro do balcão. Num gesto que só as mães têm, ela pediu para a mocinha embrulhar o sonho que encantaria a mesa do nosso café da noite.



E naquela noite eu me lambusei naquele doce; adormeci com os dentes cheios de creme e acordei há alguns dias, numa cidade já nem tão cheia de luzes, nem tão cheia de gente. Num lugar onde os balcões de padaria parecem todos iguais, infestados de pães duros ou emborrachados demais; onde o amor se esconde atrás dos olhos ansiosos de uma humanidade carente...

Olhei para cima num ato instintivo. Quando a coisa aperta, sempre olhamos para cima. Quis descobrir se ainda existiam crianças que se lambuzavam em sonhos de padaria; quis saber se o mundo sempre foi desse jeito, se eu é que ainda tenho os dentes sujos de creme enquanto o mundo tem bafo de cebola.

BlogBlogs.Com.Br

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Pesquisas Recentes

Sabem, viver é um barato. Discorde se eu estiver mentindo: a vida é tão versátil que podemos fazer dela o que quisermos. Vou dar alguns exemplos, para ser mais claro no que eu estou dizendo: é possível, se eu quiser, encarar a vida como um roteiro de cinema e todas as pessoas como personagens. Cada momento uma cena, cada lugar um cenário. É um modo de ver as coisas.

Há quem tenha uma personalidade sistemática e leve a vida como uma linha de produção: o tempo é separado metodicamente entre estudo, trabalho, vida social e necessidades fisiológicas. É um jeito racionalista de se pensar, mas funciona bem para algumas pessoas. Veja que há um contraste entre este estilo de vida e o primeiro; um é mais artístico, o outro mais funcional. Citei dois, de tantos milhões que existem...

Não posso dizer que um está certo e o outro não, ou que um é melhor que o outro. Na verdade, identifico em mim mesmo uma mistureba de "sistemas". Dentre os que em mim habitam, existe o Modo Pesquisador. Quando minha "chavinha" está posicionada nessa modalidade, vejo a vida como um imenso campo de pesquisa onde tudo é fascinante e cada momento é uma nova descoberta.

E nas minhas expedições pelos caminhos da existência, observei o seguinte: todo mundo, cedo ou tarde, tem a sensação de que "está faltando alguma coisa no mundo". É quando, de repente, parece que acabou o assunto da humanidade. O dia está sem graça, as pessoas estão sem vida, a comida está sem gosto, não dá vontade de fazer nada.

A palavra que melhor representa isso, na minha opinião, é apatia. Já passei por isso (às vezes ainda passo), e considero como uma das piores coisas que existem. Veja, estar apático é diferente de estar sofrendo. No segundo caso, existe um motivo que, sendo passageiro, uma hora vai embora e então voltamos ao normal (normal = vivendo naturalmente, sem grandes frustrações). Agora, estar apático é simplesmente não se interessar por nada, sem que haja uma causa. Pelo contrário: em tese, tudo está certo, não há nenhum problema em especial; mas o mundo parece sem graça.

Você reconhece a situação de que estou falando? E agora me diga: e quando você está numa vibe positiva, zen, e recebe um choque, ao chegar num lugar onde reina a apatia? A coisa meio que pega, né? Particularmente, gostaria muito de ter o dom que algumas pessoas têm, aquela espécie de luz-própria, capaz de curar as apatias por onde passam. Penso em "pesquisar" métodos para desenvolver isso em mim; mas aí já é história pra outro capítulo. No momento apenas compartilho minhas observações, e, se possível, uma dica: preste atenção ao redor, tente descobrir onde há apatia. Veja se por acaso, o Apathiae mosquitus também não te deu uma picadinha. Vamos unir esforços para manter o fogo do entusiasmo aceso, onde quer que estejamos.

Abraços!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Liberdade?

Apesar de curto, este não é um texto de leitura rápida.

* * *

A liberdade existe?

Podemos encontrá-la em algum lugar?

Podemos realmente fazer tudo o que queremos?

A liberdade do outro conta alguma coisa...

ou simplesmente liberdade é festa da uva?

Regras... atrapalham nossa liberdade?

Ser livre é fazer tudo o que dá na telha?

É obedecer aos instintos?

Se ser livre fosse fazer tudo o que tivéssemos vontade,

então não seríamos simplesmente escravos dos instintos?

Ser livre é ser escravo...

ou ter o poder de decidir acima da vontade?

A liberdade é pré-requisito para a felicidade?

Se for, então por que buscamos a felicidade nos vícios...

que nos fazem dependentes?

Dependência e liberdade coexistem...

ou a independência é a verdadeira liberdade?

Falamos tanto em liberdade...

ao menos sabemos o que é isso?

* * *

A Velha Professora muitas vezes nos aparece com os nomes de dor, provação, sofrimento. Por isso fugimos dela. Estamos errados? Não, ninguém gosta de sofrer, prova de que o ser humano foi projetado pra alcançar a felicidade em todos os aspectos da vida. Mas freqüentemente cometemos enganos, e às vezes a nossa vaidade é tamanha que nos impede de corrigí-los. É o caso do aluno que não se conforma com a nota que tirou e atribui a culpa ao professor (sempre maquiavélico, perseguidor). Porém, assim como nossos esportes têm suas regras, o universo também tem as dele. Por exemplo: para entender o conceito de simpatia (sentimento de ligação entre as pessoas), basta observar como uma pessoa dócil se faz agradável e querida com facilidade. Não seria uma espécie de regra? Do tipo 'gentileza gera gentileza', 'ação e reação'?

Ora, se a vida é um eco de nossas ações, então já temos uma notícia boa! Significa que podemos, nós mesmos, produzir os efeitos que queremos. Basta agir conforme desejamos que sejam os resultados. Não vamos confundir dor com infelicidade. A infelicidade verdadeira é rir hoje ao preço de lágrimas em muitos amanhãs.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A Velha Professora

Lugarejos e cidades pequenas costumam ser os lugares perfeitos para o surgimento de lendas. Contarei uma. Este mito é narrado em Pirapori, sertão do Mato Grosso; ouvi de um caixeiro-viajante que passou por lá.

A vila de Pirapori, com não mais de dois mil habitantes, sobrevive da extração de látex das seringueiras. Como pouca gente mora na área urbana, existem praticamente apenas três ruas no centro da cidade. Uma igreja, uma venda, uma delegacia e uma escola. Aparentemente normal, não é? Seria, se não fosse por uma espécie de figura mitológica que vive lá.

Alguns afirmam tê-la conhecido. Nos seus sermões, o padre prega que a Velha Professora ensina coisas que as outras professoras não conseguem. Velhos seringueiros, que praticamente também são "figuras mitológicas" com seus quase cem anos de idade, afirmam que cedo ou tarde todo mundo conhece essa Velha Professora. Quando ela chega, dizem, não é simpática. É dura, implacável, e faz muito homem velho chorar. Mas, no final das contas, se não fosse por ela, seria muito difícil entender certas coisas. E que depois a vida se torna muito melhor, mais alegre, mais simples.

Como você imagina que ela seja? A geração mais jovem de Pirapori costuma desdenhar o mito, e (como jovem tem mania de achar que sabe tudo) dizem que a tal da Velha Professora é conversa pra boi dormir. "A vida é para curtir", dizem. "Quem precisa de métodos cruéis para aprender alguma coisa? Masoquismo por quê? E além disso, quem falou que eu quero ser como ela me ensina a ser?"

O caixeiro-viajante que seguia do sertão do Mato Grosso para Balneário Camboriú estava sentado ao meu lado, no antigo trem, me contando a lenda de Pirapori. Me disse que já tinha sido ensinado pela Velha Professora, e que a verdade é que ela está em toda parte, não só na vila. Acrescentou que é melhor quando conseguimos aprender sozinhos, mas que quando somos alunos preguiçosos, ou vaidosos demais para fazer as lições, ela chega sem dar aviso. Passa e faz seu trabalho. Infelizmente, tem gente que esquece as lições e continua cometendo algumas gafes. Então a Velha Professora volta e repete o processo. Ainda, acredite, tem gente que resolve brigar com ela! Talvez pense que a revolta e os protestos vão fazê-la ir embora. Ledo engano. Ela só vai quando o aluno aprende. E quando isso acontece, o estudante, seja jovem ou velho, agradece.

Em certo momento, o caixeiro desembarcou. Admiro quem tem essa profissão, pois é como viver sem uma moradia certa, e para isso é preciso coragem. Então, sozinho, olhando pela janela a paisagem correndo apressada, refletia serenamente sobre o que eu acabara de ouvir. Já teria eu conhecido essa Velha Professora? Cheguei a conclusão de que não tive muitas aulas com ela, mas que já aprendi muito. E também concluí que se eu fizer o dever de casa, ela não vai precisar voltar.

Você já ouviu este mito? Se desconfia quem seja a Velha Professora, dê um palpite.
No próximo post eu canto a bola. :)

Raul

domingo, 14 de setembro de 2008

Correspondência

Por onde anda você?

Em minha mochila ainda carrego os apetrechos comuns a nós dois. Nosso último ato corajoso foi retornar a esta selva para realizar as grandes experiências que planejamos. Naturalmente, viemos separados; não tinha como ser de outra maneira.

Os primeiros tempos já passaram, e me parece que as coisas estão dando certo. Estou cumprindo o dever que me foi dado, e sei que você, onde estiver, faz o mesmo. Porém, confesso que hoje me deu uma vontade de dar tudo no mundo para estar com você. Não precisa dizer; eu sei que não posso deixar a saudade roubar minhas forças. Prometo, prometo que vou caminhar com firmeza e não deixarei nada mal feito. Admiro você, por sempre ter tido essa serenidade tão maior que a minha, e mesmo tendo o direito de me tratar como um menino teimoso, ainda me entrega, em vez disso, um sorriso sincero com todo o amor que há no seu coração...

Acontece que eu tenho tanto pra te contar! Tenho certeza que você também tem muito a me dizer... queria apenas que não demorasse muito para chegar o instante que eu mais espero na vida: o de estarmos novamente reunidos, para jamais sentirmos outra vez a agonia da distância! Pois a verdade é que a vida, por mais que eu tente torná-la mágica, nunca será completa se você estiver longe.

Não existem atalhos, eu sei. E desta vez pode confiar em mim, que não hei de trazer-lhe decepção. Estou abastecido de coragem e de esperança, e da luta não irei me retirar enquanto houver alguém precisando de mim. O amor deixou de ser o motivo do meu fracasso e passou a ser a minha maior força inspiradora. Vê? Quando você aparecer, não será mais para me tirar do buraco.

Me despeço, com saudades que você nem pode imaginar. Mas com a esperança de nos vermos em breve!

do seu
Raul