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sábado, 22 de agosto de 2009

vida, eu te quero




quero me perder
na abundância azul do céu
e, caso ele resolva estar cinza,
abro os braços, entregue à chuva

quero me deitar na relva
e sentir a coceira da grama
ser picado por formigas, quiçá
sujar a roupa de terra

quero as crianças sapecas
que nunca se cansam de brincar
fazem cabana, quebram vaso
e se rabiscam de canetinha

quero conhecer as árvores
chamar os pássaros pelo nome
deixar meus passos no barro
e minha cantiga no vento

e a tua companhia,
que acalma e traz alegria,
quero-a todos os dias

é querer muito? :)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Visita

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg-j7PtZIz_hHj198FUSjTB1vxbRQgcewupV4FtopWOSi2h8MRGQsz7v2AUs5TBnOVfVdQsEQb70wFH6zffWAv51c4Sfs1ULE_Rv2iVJKgzKfEOWxnpgMCkPUxNH74MHkGIPy0j-LUEqLM/s400/auntie_uncle.jpg

Um pacote novinho de bolacha
a esperar, na mesa preparadíssima

E a visita ali na sala, proseando.
Um ronco grosseiro
marca as horas no meu estômago
Minha mãe ficaria brava se eu o abrisse?
Talvez...

E quando eu vi, arrancara a fita abridora.
Visitas nunca se atrevem a inaugurar alimento alheio mesmo.
Ainda vai me agradecer a iniciativa!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Sonho de Padaria

Quando eu era criança, entrei numa padaria.

E vi um balcão cheio de doces. No fundo, uma prateleira espelhada com vários tipos de pão. O teto de madeira, com luminárias, fazia do ambiente um lugar aconchegante. Era Dezembro; luzinhas natalinas enfeitavam o contorno das portas, um papai noel pendurava-se no alto de um armário. A noite já tinha caído, e a padaria estava cheia de gente, a rua estava cheia de gente, a cidade estava cheia de gente.

E eu, agarrado ao braço da minha mãe, lhe fiz um único pedido: queria aquele sonho, aquela coisa cremosa e mágica que repousava solitária na bandeja; aquele sonho que eu vislumbrava pelo vidro do balcão. Num gesto que só as mães têm, ela pediu para a mocinha embrulhar o sonho que encantaria a mesa do nosso café da noite.



E naquela noite eu me lambusei naquele doce; adormeci com os dentes cheios de creme e acordei há alguns dias, numa cidade já nem tão cheia de luzes, nem tão cheia de gente. Num lugar onde os balcões de padaria parecem todos iguais, infestados de pães duros ou emborrachados demais; onde o amor se esconde atrás dos olhos ansiosos de uma humanidade carente...

Olhei para cima num ato instintivo. Quando a coisa aperta, sempre olhamos para cima. Quis descobrir se ainda existiam crianças que se lambuzavam em sonhos de padaria; quis saber se o mundo sempre foi desse jeito, se eu é que ainda tenho os dentes sujos de creme enquanto o mundo tem bafo de cebola.

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