domingo, 11 de outubro de 2009

11/10/09                Favor Ler com Espanto



    Não pretendo colocar aqui nenhuma informação de hoje em diante. Peço que não leia isto como lê um jornal: secamente, correndo as linhas com os olhos impacientes, olhos de tédio, ansioso por terminar de ler esta notícia para poder ler as outras, e ler mais e mais, freneticamente, como se as acumulasse. Como se somar números fosse sua ambição.

    Um caderno de realidades imaginárias, lido como um jornal, será decepcionante. Se você anda com pressa e sede de informações, melhor não ler. Porém, estando disposto a fazer passeios, aqui vai encontrar companhia. Eu também parei de escrever com pressa.

    Ao ler, permita-se envolver; deixe conduzir-se pelas palavras, caminhe com elas! Seja autor do significado que elas terão. É por isso que o blog recebeu este nome: um caderno de realidades imaginárias. Por mais que nós humanos queiramos ser realistas, o maior nível de realismo que podemos obter é o consenso entre as nossas imaginações.

    Ainda assim, consenso não significa, obrigatoriamente, verdade. Que ninguém na Terra termine o dia sem ter olhado com espanto ou surpresa para algum objeto, ou pessoa, ou lugar. Nosso espanto é música. Que ninguém na Terra termine o dia sem ter musicalizado a existência!
(A imagem acima foi encontrada na internet, sem referência ao autor)

domingo, 4 de outubro de 2009



    Alguma coisa parece ter mudado por aqui...

sábado, 22 de agosto de 2009

vida, eu te quero




quero me perder
na abundância azul do céu
e, caso ele resolva estar cinza,
abro os braços, entregue à chuva

quero me deitar na relva
e sentir a coceira da grama
ser picado por formigas, quiçá
sujar a roupa de terra

quero as crianças sapecas
que nunca se cansam de brincar
fazem cabana, quebram vaso
e se rabiscam de canetinha

quero conhecer as árvores
chamar os pássaros pelo nome
deixar meus passos no barro
e minha cantiga no vento

e a tua companhia,
que acalma e traz alegria,
quero-a todos os dias

é querer muito? :)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Visita

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Um pacote novinho de bolacha
a esperar, na mesa preparadíssima

E a visita ali na sala, proseando.
Um ronco grosseiro
marca as horas no meu estômago
Minha mãe ficaria brava se eu o abrisse?
Talvez...

E quando eu vi, arrancara a fita abridora.
Visitas nunca se atrevem a inaugurar alimento alheio mesmo.
Ainda vai me agradecer a iniciativa!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Liberdade como num Carrinho de Supermercado

Direto da prateleira da vida para o carrinho, sem cerimônia nem filosofia, alguns pensamentos:

  1. Que vontade de botar a mochila nas costas e o pé na estrada - viajar.
  2. A fama é algo aleatório.
  3. Odeia acordar cedo? Eu adoro.
  4. Certas lições têm efeito retardado.
  5. Ainda vou tirar um dia pra brincar de "Sim, Senhor!" e ver no que dá.


1. Sei lá, cara. Eu sei que está frio, mas me deu uma vontade de pegar um carro, ir pra Ubatuba ou algo assim, ver um pouco de areia e mar. Ou então algum lugar pra onde eu nunca tenha ido. E certamente, acompanhado de gente entusiasmada e "pra cima".

2. Completamente. Tem gente famosa com mérito, com certeza, mas também tem muito maluco que, sério, ninguém entende por que é famoso. Hoje estive ouvindo música de uns grupos desconhecidos - e muitos eram extraordinariamente bons. Deviam aparecer na TV e tocar nas rádios... mas nesses veículos estão sempre os mesmos cara-pálidas. A fama, então, é uma questão de ter contatos, não de ter talento. Você pode ser genial ou péssimo. Existe uma roleta que define - esse aqui decola, esse aqui não.

3. A manhã, definitivamente, é a parte nobre do dia. Ir à padaria, trazer pão fresco, arrumar a mesa e fazer aquele café da manhã saboroso. O ar é mais fresco, o sol é mais complacente, a energia é diferente. Existe aquela sensação de "meu dia está apenas começando". Há muita história ainda pra ser escrita. Acordar às duas da tarde é deprimente, parece que metade da vida passou enquanto estávamos dormindo...

4. É surpreendente. Mesmo aprendendo o certo, insistimos em fazer o errado. E durante um bom tempo. Até que um dia, geralmente depois de ver algo dando MUITO errado, a gente resolve fazer diferente. E tira lá do fundo do baú aquilo que já era sabido há tempos.

5. Você precisa ter assistido "Sim, Senhor!" para entender esse comentário.

sábado, 25 de abril de 2009

A Saga da Música no Cativeiro da Flauta


Por que a música toca tanto o nosso sentimento? Existe uma explicação para a beleza, a ternura e a saudade que se aconchega em nossa alma quando ouvimos uma canção?

Existe.

Toda música se alimenta de um sonho: entrar pelos ouvidos de alguém e repousar em sua alma. Se ninguém a escutar, ela jamais habitará a memória de uma pessoa, trazendo lembranças de um instante bom; jamais trará riso a um rosto amigo; nunca será cantada ao ouvido de alguém que se ama antes de dormir.

Uma música precisa precisa fazer parte de uma vida. Somente assim sua existência ganha sentido.

E as músicas, antes de atingirem esse ponto alto de suas vidas, esperam pacientemente dentro dos instrumentos. Convivem com as outras músicas não-tocadas; conversam sobre aquelas que já tiveram a felicidade de serem ouvidas, e se alimentam da esperança de que um dia terão a sua oportunidade.

Então, sem dar aviso, chega o instante em que uma canção é chamada a realizar o grande sonho! Por um lado, a felicidade que não tem mais fim; por outro, a despedida. E como não há despedida sem saudade, a música que vai chora por deixar o convívio daquelas que ficam.

Daqui de fora, nos emocionamos sem saber como é belo momento que está diante de nós.

~~~~~~~~~~

Alguns dizem que a história do Universo já está escrita desde o início, e que se estamos vivendo hoje, é porque Deus está relendo a sua obra, exatamente no trecho em que se encontra a nossa vida.

O que sei é que existia uma música que esperava, há muito tempo, dentro de uma flauta. Já tinha assistido a muitas despedidas de companheiras suas, que partiam entre o riso e a lágrima, para ganhar lar nas almas nas pessoas. Viu o tubo da flauta ser soprado, inúmeras vezes; mas nenhuma foi para lhe carregar e dar liberdade. Sem se queixar, ficou ali, esperando, pois sabia que o seu momento ainda viria.


Certo dia, sentiu uma angústia profunda. Tinha a sensação de que já deveria ter sido tocada, e um leve desespero começou a acompanhar a idéia de que talvez tivessem se esquecido dela.

Resolveu compartilhar suas preocupações com a flauta, e esta lhe respondeu:

- Desculpe, mas eu não posso fazer nada. Sou mero instrumento, apenas obedeço à vontade do flautista. Além disso, você não é a única nessa situação... há tantas músicas não-tocadas por aí!

A música, então, ficou calada. Permaneceu duas semanas pensativa, até que resolveu falar novamente com a flauta, e ouviu como resposta:

- Já que a sua insistência é muito grande, creio que precisarei ser mais direta. Na minha opinião, você jamais será tocada.

- Não pode ser! - respondeu a música - Eu tenho fé no flautista, acredito que mais cedo ou mais tarde ele irá me tocar.

- Pois então vou te contar: - disse a flauta com sinceridade - é verdade que às vezes ele pensa em te tocar. Mas quando isso acontece, logo se sente forçado a abandonar a idéia. As pessoas que vivem ao redor dele não estão acostumadas a vê-lo tocando músicas como você, e isso poderia chocá-las. Saiba que se estou te falando isso, não é com a intenção de te magoar. Porém, é preciso ser franca para que não crie falsas expectativas.

- Mas... - a música sustentava a esperança - eu sinto que não sou apenas uma música qualquer, no meio de tantas outras... eu devo significar algo mais para esse flautista, pois sei de alguma forma que na alma dele tem um espaço que somente eu poderei preencher...

Enquanto a flauta e a música travavam essa dolorosa conversa, a mesma atmosfera tensa cobria o mundo íntimo do flautista. Sem que ele soubesse ao certo o quê, desejava algo intensamente; ao mesmo tempo, tinha medo de descobrir o que era. No fundo, pressentia que havia uma bela e surpreendente melodia por vir, mas temia a reação das pessoas. Foi contendo, suprimindo, sufocando aquele sentimento dentro de si o quanto pôde.


- Infelizmente - disse a flauta em tom conselheiro - a vida é assim. Certas músicas jamais saem de dentro da flauta. Muitas vezes as pessoas passam a vida inteira com uma lacuna, um pedacinho vazio no coração, sem saber o por quê. É o espaço que pertence a uma música não-tocada. Pode parecer uma imperfeição do Universo, mas é o que acontece.

- Flauta, - perguntou a música - você acredita em destino?

- Não, - respondeu a flauta com ceticismo - isso é bobagem. A vida está sendo construída nesse exato instante. Não existe um projeto pré-existente, tudo será conforme as escolhas das pessoas.

- Então não existe motivo para afirmar que eu não serei tocada! - concluiu a música - Não há nada escrito, nem determinado, que obrigue o flautista a rejeitar os próprios sentimentos. Por mais que ele se sinta pressionado a calar a voz do próprio coração, ele pode optar por, em vez disso, mandar que se cale o mundo, para que sua alma possa cantar.

- E se eu tivesse respondido que acredito em destino? - retrucou a flauta.

- Bom, - pensou a música - nesse caso eu diria que, se tudo está escrito, não há obstáculo grande o suficiente para impedir uma coisa de acontecer, se essa coisa tiver mesmo que acontecer. Veja que, em algum momento, o Criador me idealizou e me deu uma tarefa. Colocou-me neste tubo e me deixou apenas esperando o momento em que o flautista me dará vida e permitirá que eu entre pelos seus ouvidos e repouse em sua alma. E algo me diz que esse momento chegou...

O flautista, então, quando deu por si, já tinha os lábios encostados na boquilha da flauta e soprava as primeiras notas daquela linda música que custara a sair, sob os olhares curiosos de uma pequena multidão. Se o destino existe, poder-se-ia dizer que estava se cumprindo. O flautista fez a escolha que deveria ter feito. Porém, se não há nada escrito, a história acabava de tomar um rumo totalmente inesperado, e dali para frente tudo era um mistério. E o mistério encanta as pessoas que gostam de viver...


Raul França, 25/04/09

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Pra me confessar...





Ah, delícia... a gente leva cada caldo da vida, e assim vamos aprendendo.

Estamos lá, cheios de certezas. Cheíssimos, - permitam-me colocar gordura nisso - abarrotados, saturados e transbordando certezas.

Quem tem certezas, faz julgamentos. Aponta com o dedão a situação alheia e acredita ter o remédio pra todo mal que há na vida... apenas porque tem "certezas".

Como já previa Luís Fernando Veríssimo, "quando achamos que temos todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas".

E então... cadê meu chão?